Você perambula por ai de link em link, de loja em loja, de artigo em revista à enciclopédia procurando por sons instigantes.Você já conheceu o Kraftwerk antigo e o atual, viveu a ascensão e queda da música eletrônica francesa na virada do último século, se emocionou vendo os shows pirotécnicos do Jean Michel Jarre no Youtube... O marasmo começou a dominar quando nada de interesse novo era produzido. Vinha uma promessa de outra dupla de rapazes que seriam altamente representativos de alguma coisa. Você ouviu ansioso e se decepcionou com a falta de versatilidade. Foi a shows de bandas de gente ‘cool’ que aplicou um synth à coleção baixo-guitarra-bateria-voz porque acharam que era “vintage” ou “oldschool”.
Cansado de tudo e todos, um dia você lembra que os dois percussionistas da fase mais famosa do Kraftwerk saíram da banda em 1991 pra tocar suas vidas. Você tem o CD do Karl Bartos, Communication, de 2003 que é puro synthpop masterpiece. Também ouviu o Yello e achou uma tentativa fraca de dizer que “não fui apenas um baterista” e tive/tenho sim muita contribuição para a “cena musical”.
O Karl Bartos vem ao Brasil e faz seu show que mistura imagem e som. Você perdeu porque tinha contas pra pagar e não pôde gastar míseros R$ 120,00 pra ir a Porto Alegre assisti-lo. Após arranhar sua própria face de raiva, você tenta desafogar o nojo que sua vida se tornou, do ponto de vista musical, e vai afogar as mágoas procurando informações sobre o espaço entre a saída do Karl Bartos do Kraftwerk (1991) e o álbum Communication (2003).
Entre outras coisas, vê ali um nome: Elektrik Musik (um pseudônimo) com um álbum chamado “Esperanto”, lançado em 1993.
O cara realmente tinha coceira mental e simplesmente teve que pedir pra sair. Na velocidade das coisas à época, jamais haveria oportunidade por em prática todo os fascinantes ritmos e batidas avant-gard techno de Esperanto.
Como na época de Kraftwerk, tudo faz um sentido absurdamente perfeito. Metade das canções contém letras cantadas em Esperanto. E temas recorrentes do Kraftwerk ressurgem, como a tecnologia na vida cotidiana e suas conseqüências.

O CD tem 8 faixas e conta com colaborações do Karl com o Andy McKluskey do Orchestral Manouvres in the Dark – que até merece ter o Best Of comentado aqui, além do colaborador antigo do Kraftwerk, Emil Schult participando da composição musical e gráfica do álbum.
A primeira faixa, TV, é uma clássica canção do Kraftwerk, em termos de melodia, letra e intervenções sonoras, whatever that means. A letra, por Bartos cru, sem vocoder, como em "The Telephone Call" única música cantada por ele no Kraftwerk, é perfeita pra canção.
Watch the news on the screen, is it real or dream? … TV guide in a hand. Every place, every time, politics, sex and crime, I press the key and watch TV… Charlie Chaplin is on tonight, Science Fiction, history, electric church, comedy.
Ai entra a voz da locução da BBC2 e diz: Stay with us, we will be right back.
Vamos combinar que para 1993, isso é um ode à TV a cabo. Essa disponibilidade de encontrar milhões de opções a qualquer hora do dia e da noite aos olhos de 2008 condiz perfeitamente com a acessibilidade da internet. Hoje, a fusão entre computador e TV com a TV Digital acabou alterando o crescente desenvolvimento da TV. Mas com a coisa-toda analógica e com os computadores ainda não tão representativos nos nossos lares em 1993, a música foi, de forma muito feliz, visionária em potencial.
O CD ainda tem as obravas primas Lifestyle que poderia muito bem fazer parte do CD Communication de 2003 e ainda soar novinha em folha. Overdrive, que ao terminar sempre me deixa naquela do “mas, já?” Information que como lifestyle abusa de usar fonética com elemento musical e o vocoder maravilhoso canta aqui. O mesmíssimo usado no Communication e nos shows. Tem Kissing the Machine que me faz lembrar Deeper Understanding da Kate Bush sobre uma relação afetiva com um computador. Esperanto é oura canção que remete às melodias kraftwerkianas tanto quanto Crosstalk.
Para quem gosta de um bom e velho techno pop, acessível e despretensioso. Não tem erro. Agora é tentar aprender qualquer coisa em Esperanto pra decifrar o que está sendo cantado nas músicas... Talvez o fórum do site do Karl ajude. Joga no Google. Fui.